KAYTRANADA PASSOU PELO RIO DE JANEIRO COM SUA SOFISTICADA FUSÃO DE HOUSE, FUNK, R&B E HIP HOP
Um dos nomes mais influentes da música eletrônica contemporânea, o produtor e DJ haitiano-canadense Kaytranada se apresentou no Armazém da Utopia, em uma noite que reuniu talentos de diferentes gerações e vertentes da cena brasileira
Há artistas que simplesmente comandam uma pista.
Outros conseguem transformar uma pista em uma experiência. Kaytranada pertence à segunda categoria.
Com uma trajetória construída entre o hip hop, o R&B, o funk, o soul, o house e a música eletrônica, o produtor e DJ haitiano-canadense Kaytranada desembarcou no Rio de Janeiro para uma apresentação especial no Armazém da Utopia, levando à cidade a turnê “Ain’t No Damn Way!”.
Nascido Louis Kevin Celestin, em Porto Príncipe, no Haiti, e criado na região de Montreal, no Canadá, Kaytranada o artista construiu uma identidade musical que ultrapassou as fronteiras geográficas e estilísticas.
Começou a experimentar com música ainda adolescente e, aos poucos, passou de produtor underground a um dos artistas mais respeitados da música eletrônica mundial.
Sua trajetória ganhou projeção internacional inicialmente por meio de remixes e produções disponibilizadas na internet.
O lançamento de “99.9%”, em 2016, consolidou seu nome como uma das grandes forças criativas da música eletrônica contemporânea.
Três anos depois, veio “BUBBA”, álbum que ampliou ainda mais seu alcance e lhe rendeu dois prêmios Grammy, incluindo Melhor Álbum Dance/Eletrônico e Melhor Gravação Dance, esta última por “10%”, colaboração com Kali Uchis.
Mas talvez parte do fascínio de Kaytranada esteja justamente naquilo que não cabe em uma única definição.
Seu som tem a precisão de um produtor eletrônico, a espontaneidade de um DJ de club e uma compreensão profunda da cultura negra e de suas diferentes manifestações musicais.
House, funk, soul, R&B, hip hop e elementos de música brasileira encontram espaço em seus sets sem parecerem simplesmente colados uns aos outros.
É uma música sofisticada, mas nunca distante.
Ele tem o molho.
E é também por isso que Kaytranada é um artista tão fantástico e carismático.
Existe personalidade em cada escolha, groove em cada transição e uma capacidade rara de estabelecer comunicação imediata com o público.
Seu show não depende apenas de grandes sucessos: a experiência nasce da maneira como ele conduz a pista, cria tensão, libera energia e estabelece uma conexão quase física com quem está diante dele.
A pista fica eletrizada com seu som. Ninguém fica parado.
UM ARTISTA DE ALCANCE GLOBAL
A agenda internacional de Kaytranada ajuda a dimensionar o tamanho que seu trabalho alcançou.
O produtor circula por importantes clubes, festivais e eventos de música eletrônica ao redor do mundo, passando por diferentes territórios da Europa, América do Norte e outros grandes centros da cultura de pista.
Em agosto de 2026, por exemplo, sua agenda inclui apresentações em Ibiza, Barcelona, São Paulo e Rio de Janeiro, antes de compromissos nos Estados Unidos.
Não por acaso, seu nome aparece associado a diferentes universos da música internacional.
Kaytranada já colaborou ou dividiu projetos com artistas como Pharrell Williams, Kali Uchis, Tinashe, Estelle e VanJess, entre muitos outros.
Sua força está justamente nessa capacidade de transitar entre mundos tão distintos com fluidez.
Kaytranada pode estar em um grande festival internacional, em uma noite de club em Ibiza ou diante de uma multidão brasileira e, ainda assim, preservar aquilo que tornou seu trabalho reconhecível: um groove elegante, dançante e absolutamente pessoal.
É fantástico.
UMA NOITE QUE REÚNE O MUNDO E O BRASIL
No Rio de Janeiro, a apresentação ganhou uma dimensão ainda mais interessante por dividir a programação com alguns dos nomes mais inventivos da atual música eletrônica brasileira.
A noite começa com Aisha B2B Yaminah, seguida por Deekapz, Kaytranada, VHOOR e Marta Supernova, formando uma programação que atravessa house, funk, soul, hip hop, bass music e diferentes linguagens da música de pista.
Entre os destaques brasileiros está o Deekapz, duo formado por Matheus Henrique e Paulo Vitor, criado a partir do encontro entre artistas do interior de São Paulo.
A dupla construiu uma assinatura própria ao combinar música eletrônica, funk, soul, rap e referências da música brasileira.
O projeto já passou por importantes festivais como Lollapalooza, Primavera Sound, The Town e Coala Festival, além de ter realizado turnês internacionais.
Outro nome de enorme relevância é VHOOR, nascido e criado em Belo Horizonte.
O produtor mineiro transformou diferentes linguagens do funk em matéria-prima para uma sonoridade eletrônica contemporânea, alcançando pistas internacionais. Seu trabalho já chegou a palcos e plataformas como Primavera Sound, Sónar e Boiler Room, estabelecendo uma ponte entre a cultura do baile brasileiro e a cena eletrônica global.
Representando o Rio de Janeiro, Marta Supernova acrescentou ao encontro uma pesquisa artística profundamente ligada às raízes brasileiras. DJ, produtora, artista visual e percussionista, Marta começou sua trajetória musical em escolas de samba como Salgueiro e Estácio de Sá e posteriormente levou referências afro-brasileiras, afro-indígenas e eletrônicas para sua produção.
O resultado foi é um line-up que não se limitou a apresentar um grande artista internacional.
A proposta foi criar um verdadeiro diálogo entre a cultura de pista brasileira e a música eletrônica global.
KAYTRANADA NO ARMAZÉM DA UTOPIA
A escolha do Armazém da Utopia, no complexo do Cais do Porto, também contribuiu para a atmosfera da noite.
O espaço recebeu uma experiência concebida para privilegiar a pista e a permanência do público, em uma programação que atravessou a madrugada carioca.
E a noite carioca volta a ter vida, com inúmeros bares e boates funcionando na madrugada lotados.
A apresentação carioca integrou a passagem brasileira da turnê “Ain’t No Damn Way!”, que também teve uma noite em São Paulo.
No Rio, Kaytranada dividiu a programação com Deekapz, VHOOR, Marta Supernova e Aisha B2B Yaminah.
Mais do que um show de música eletrônica, a noite representou o encontro de diferentes culturas musicais.
De um lado, Kaytranada, artista haitiano-canadense que conquistou os principais palcos e pistas internacionais com sua mistura singular de house, funk, soul, R&B e hip hop.
Do outro, uma geração brasileira que vem mostrando ao mundo que a música eletrônica produzida no país possui identidade própria, dialoga com suas raízes e pode ocupar qualquer pista do planeta.
E talvez seja exatamente aí que esteva a força dessa noite singular.
Foi quando o groove de Montreal encontrou a pulsação brasileira e a distância entre os dois mundos simplesmente desapareceu na pista.

