Em uma era em que o pop era frequentemente previsível e dominado por fórmulas seguras, Cyndi Lauper explodiu na cena como um verdadeiro furacão de cores, figurinos criativos, sons e irreverência, redefinindo o que significava ser uma estrela nos anos 80.
No dia 20 de setembro, o Rio de Janeiro terá o privilégio de receber essa lenda viva no Palco Mundo do Rock in Rio.
Prometendo uma noite inesquecível, Cyndi trará ao público décadas de inovação musical, atitude rebelde e ativismo apaixonado. E, numa curiosa coincidência, enquanto Cyndi agita o Rio, Mariah Carey estará encantando São Paulo, em um encontro histórico que celebra duas das vozes femininas mais marcantes da música pop.
Cyndi Lauper é praticamente a madrinha de todos nós que crescemos acreditando que ser “normal” é uma tremenda furada.
Ela nos ensinou que é perfeitamente aceitável (e até recomendável) pintar o cabelo de todas as cores do arco-íris e misturar peças de brechó como se fosse alta costura—aliás, se você ou sua irmã não usou um sutiã por cima da camiseta nos anos 80, o que estava fazendo da vida?
No mundo pop do início dos anos 80, ela e Madonna eram como a Ivete e Claudia Leitte na música baiana.
A Cyndi já até falou sobre como as duas foram “postas uma contra a outra” pela indústria e pela mídia nos anos 80, algo de que ela não gostou muito.
A estrela nova-iorquina sempre fez questão de deixar claro que, enquanto Madonna fazia sua revolução pop, ela estava ocupada com outra coisa: ser a própria definição de “unusual” e trazer toda a cor que faltava na música da época.
O tempo provou que cada uma, do seu jeito, é incomparável!
Mas é bem verdade que, enquanto a Madonna ainda estava cantando que ela era “Like a Virgin”, a Cyndi já mandava um “She Bop” (cheia de referências à masturbação).
Outro episódio que ajudou a alimentar essa rivalidade foi durante a gravação da icônica “We Are The World”. Essa é aquela música que todo mundo já tentou cantar junto (IARNUOU, né, Solange?!), mas só quem tem a potência vocal de Cyndi – por sua poderosa e distinta extensão vocal de quatro oitavas – consegue lhe fazer justiça.
Além do já famoso incidente das joias barulhentas que a Cyndi estava usando, que causaram um ruído irritante durante a gravação, houve também uma história sobre a escolha entre ela e Madonna.
Na época, Quincy Jones, que foi o produtor da faixa, precisava selecionar os artistas que fariam parte do supergrupo. Um dos dilemas enfrentados foi decidir entre Cyndi Lauper e Madonna. A escolha acabou recaindo sobre Cyndi, que tinha uma voz muito distinta e uma presença já bem marcada por sua recente ascensão com She’s So Unusual.
Lionel Richie, que também estava envolvido na produção, mencionou em uma entrevista que, ao final, Cyndi foi escolhida porque sua voz era mais “imediatamente reconhecível”, um fator crucial para a gravação. No meio de tantos gigantes da música, foi o grito de Cyndi que se destacou e ficou marcado na história.
“She’s So Unusual”, lançado em 1983, foi o primeiro álbum solo de Cyndi Lauper e imediatamente se destacou por sua mistura única de new wave, pop, e elementos de punk rock.
O mundo nunca mais foi o mesmo depois desse álbum.
Aquela voz inconfundível que parecia um mix de sereia com punk rock se espalhou por todos os cantos do globo. O álbum gerou vários singles de sucesso que continuam a ser influentes até hoje, como, por exemplo, “Girls Just Wanna Have Fun”, “Time After Time” e “She Bop”.
Cyndi Lauper solidificou seu lugar na história da música pop com seus hits que capturam diferentes aspectos da experiência humana.
Falando apenas de alguns: “Girls Just Want to Have Fun” (1983) é um manifesto vibrante de liberdade e diversão feminina, que se tornou um dos maiores sucessos dos anos 80, celebrando a autonomia e a alegria das mulheres em um mundo que muitas vezes tenta controlá-las.
“Time After Time” (1984), uma balada de amor e lealdade, revelou a profundidade emocional de Lauper, alcançando o topo das paradas e tornando-se um clássico intemporal.
“True Colors” (1986), por sua vez, é um hino de aceitação e autenticidade, encorajando as pessoas a mostrarem suas verdadeiras essências, e se tornou uma das canções mais significativas de empoderamento, especialmente dentro da comunidade LGBTQIA+.
Essas três músicas não só definiram a carreira de Cyndi Lauper, mas também influenciaram profundamente a cultura pop e o ativismo social mundial.
Cyndi provou seu talento não apenas como diva pop; ela teve atuação reconhecida e premiada na música, na TV e no teatro.
Falar de Cyndi é falar de uma quase-EGOT. Ela tem um Emmy, dois Grammys e um Tony, faltando apenas um Oscar para completar o quarteto. Seu Grammy veio lá em 1985, como Melhor Artista Revelação, depois de “She’s So Unusual” dominar o mundo. O Emmy veio em 1995, por sua participação em “Mad About You”, famosíssima série de TV dos anos 1990. Em 2013, veio o Tony pelo musical “Kinky Boots”, que também lhe rendeu seu segundo Grammy. Cyndi compôs a trilha sonora e, como sempre, arrasou, provando que não é só uma cantora sensacional, mas também uma compositora incrível.
Com Billy Porter no papel de Lola e um enredo cheio de carisma e botas maravilhosas, a peça conquistou o público e levou a estatueta de Melhor Trilha Sonora no Tony. “Raise You Up” é mais um hino na carreira de Cyndi!
Agora, uma curiosidade que talvez nem todo mundo saiba: Cyndi compôs a música The Goonies ‘R’ Good Enough para o filme clássico dos anos 80, Os Goonies. Embora ela mesma não fosse muito fã da música (chegou a dizer que odiava, mas quem nunca teve um hit que não aguenta mais?), ela acabou virando um hino para quem cresceu naquela época.
Cyndi Lauper teve uma vida pessoal marcada por desafios e superações que influenciaram profundamente sua obra artística.
Criada em um ambiente familiar conturbado, com um pai ausente e uma relação difícil com o padrasto, Cyndi enfrentou abusos e dificuldades financeiras desde cedo. Esses traumas contribuíram para a profundidade emocional de suas músicas, como em “True Colors”, que reflete uma busca por aceitação e autenticidade.
Suas experiências pessoais trouxeram uma vulnerabilidade genuína e uma força resiliente para suas performances e letras, tornando-a uma figura de inspiração para muitos.
Além disso, o ativismo de Cyndi, especialmente em prol da comunidade LGBTQIA+, reflete seu compromisso com a igualdade e a justiça, valores que ela carrega desde jovem. Ela fundou a True Colors United, uma organização que combate a falta de moradia entre jovens LGBTQIA+, e sua música “True Colors” se tornou um hino para movimentos de direitos civis.
A vida pessoal de Cyndi, cheia de lutas e vitórias, ecoa em sua obra, onde ela sempre buscou dar voz aos marginalizados e transmitir mensagens de esperança e empoderamento através de sua arte.
Então, no próximo dia 20 de setembro, quando ela subir ao palco do Rock in Rio, prepare-se para uma performance que vai te levar de volta no tempo e, ao mesmo tempo, mostrar que Cyndi Lauper continua tão relevante quanto sempre foi.
Porque se tem algo que a gente pode aprender com ela é que ser “unusual” (incomum) não é apenas aceitável — é algo a ser muito celebrado mundialmente.

