Apresentação épica do Living Colour comemorando os 40 anos de carreira

Living Colour entrega show inesquecível de comemoração de 40 anos de carreira em noite de emoção e celebração no Rio de Janeiro, no sábado, dia 28 de fevereiro de 2026.

Nem toda grande noite precisa de casa lotada para entrar para a história.

O show do Living Colour, no sábado dia 28 de fevereiro  não teve o mesmo público da última apresentação no Sacadura 154, na região portuária do Rio de Janeiro, mas reuniu algo talvez ainda mais poderoso: um público fiel, vibrante e completamente entregue.

Desde os primeiros acordes, ficou claro que não seria apenas mais um concerto — foi uma verdadeira celebração.

Uma comunhão entre banda e plateia. Cada música soava como um manifesto, cada riff incendiava o ambiente, cada pausa era preenchida por aplausos apaixonados.

Os integrantes estavam visivelmente emocionados.

Havia sorrisos discretos, olhares cúmplices e uma entrega intensa a cada execução.

A conexão era palpável.

Importante destacar que se houver um contato com extraterrestres esse ano, como alguns vêm cogitando, com certeza ele acontecerá através das ondas sonoras produzidas pela bateria de Will Calhoun — uma força rítmica tão poderosa que parecia capaz de atravessar dimensões.

Ele teve um momento solo na apresentação que levou toda a plateia ao ápice. Todos entraram em transe.

 A banda se apresentou com o mesmo fôlego visceral dos tempos em que incendiava o lendário CBGB, em Nova York — crua, intensa e pulsante, mas agora somando a maturidade, a precisão e a segurança de mais de 40 anos de estrada pelo mundo.

Vale destacar que o CBGB foi o templo da música em NYC onde a música, a cultura, o movimento punk e o rock fizeram história.

O estabelecimento foi o olho do furacão do punk rock e da new wave em Nova York.

O CBGB & OMFUG (nome completo) foi muito mais que um bar, foi o berço de uma revolução cultural.

O dono, Hilly Kristal, fundou o local na década de 70 no Lower East Side, Manhattan, com uma intenção bem diferente do que ele se tornou.

O CBGB (Country, BlueGrass and Blues) abriu as portas, mais especificadamente, no ano de 1973, com uma proposta quase irônica: tocar country e blues. 

Mas foi ali que nasceu algo muito maior — o punk rock nova-iorquino e boa parte da cena alternativa que redefiniu a música nas décadas seguintes, na cidade que por muitas décadas foi reconhecida como esquina do mundo.

Tudo acontecia nas ruas de New York e ainda acontece.

O CBGB ganhou esse nome pois suas iniciais faziam alusão a Country, BlueGrass e Blues, estilos que o dono imaginava que receberia no local.

Ao invés de Blues e Country, o local acabou se tornando o berço de bandas lendárias de punk rock e new wave como Ramones, Blondie, Patti Smith, Television e Talking Heads, e de repente o mundo todo estava de olho naquela fachada com uma simpática tenda onde também se lia OMFUG.

A sigla, aliás, significa Other Music For Uplifting Gormandizers, ou “Outros tipos de Música Para Gormandizers Estimulados”, onde “Gormandizers” reflete alguém que tem paixão por comida, mas aqui, segundo a ideia de Kristal, teria paixão por “devorar boa música”.

E isso não aconteceu, mas o endereço com capacidade para 350 pessoas no número 315 da Rua Bowery em NYC entrou para a história de outra forma.

Apesar do nome focado em música country, o local acabou se tornando o palco principal para bandas que não tinham onde tocar porque tocavam músicas autorais e “barulhentas”.

O CBGB foi o epicentro do punk e da new wave em Nova York. Embora o nome sugerisse outros estilos, o palco de Hilly Kristal se tornou o berço de lendas que moldaram o rock moderno. Foi lá que surgiram nomes simplesmente como:

– Ramones: fizeram sua estreia pública no clube em 1974 e se tornaram a banda residente mais icônica da casa.

– Blondie: Debbie Harry e sua banda deram os primeiros passos no CBGB antes de estourarem mundialmente.

– Talking Heads: começaram abrindo shows para os Ramones em 1975.

– Patti Smith: a “poeta do punk” foi fundamental para a fama do local; ela também realizou o último show da história do clube em 2006.

– Television: uma das primeiras bandas da cena a tocar regularmente lá, ajudando a estabelecer o local como um reduto de música original.

– The Police: fizeram sua estreia nos EUA no palco do CBGB em 1978.

– Joan Jett: frequentadora e performer assídua após o fim das Runaways.

– Guns N’ Roses: tocaram no clube em 1987, pouco antes do lançamento de Appetite for Destruction.

– AC/DC: realizaram shows históricos e barulhentos no local durante suas primeiras turnês americanas. Imagina assistir o AC/DC no Sacadura…

– The Beastie Boys: começaram na cena hardcore de domingo (as famosas matinês) antes de migrarem para o hip-hop.

– Living Colour: era da casa. Eles eram presenças constantes e foi lá que Mick Jagger os assistiu pela primeira vez, ficando tão impressionado que ajudou a produzir as demos que garantiram o contrato da banda com a Epic Records.

Em 2005, eles lançaram até o álbum Live from CBGB’s, gravado originalmente em 1989.

Nos anos 80, o clube virou o refúgio do hardcore nova-iorquino com bandas como:

– Bad Brains

– Agnostic Front

– Misfits

– Cro-Mags

O CBGB fechou as portas em outubro de 2006, mas sua marca na história da música é permanente. Qual dessas eras ou bandas você acha que mais influenciou o som atual?

O clube era famoso por sua localização, ser escuro, bagunçado e ter o banheiro mais grafitado da história do rock.

Essa falta de frescura definia o espírito do punk. Era a pura essência do underground.

Após uma longa disputa de aluguel, o CBGB fechou, infelizmente, suas portas em 2006. O último show foi da Patti Smith.

Atualmente, o local (315 Bowery) virou uma loja de roupas de grife, mas o letreiro e a marca CBGB se tornaram ícones globais da moda e da atitude rock’n’roll.

Mais um detalhe interessante, Hilly Kristal tinha uma regra de ouro: as bandas só podiam tocar CBGB se fossem músicas originais. Nada de covers! Foi isso que forçou toda uma geração a correr atrás da criatividade.

Ali, o punk ganhou forma: som cru, atitude direta, estética DIY (faça você mesmo) e liberdade total de expressão.

O palco era pequeno, o som às vezes caótico, os banheiros lendariamente grafitados — mas a energia era viva, pulsante  e revolucionária.

O CBGB não era apenas um clube.

Era um laboratório cultural e democrático.

Um espaço onde o erro era permitido, onde a experimentação era incentivada e onde bandas podiam construir identidade diante de um público curioso e engajado, no meio da cidade mais cosmopolita do mundo, à época.

Quem aqui escreve passou algumas noites no lendário CGBG nos anos 2000 e pode falar, com propriedade, que o espírito da casa americana é muito semelhante ao da Sacadura Cabral 185, no Rio de Janeiro. 

A versão carioca muitas vezes oferece ao seu público apresentações inesquecíveis, como a que ocorreu no último sábado.

Na história do rock, poucos lugares têm peso simbólico comparável ao estabelecimento novaiorquino.

O CBGB representava resistência artística num período em que o rock de arena dominava o mercado.

Enquanto grandes estádios celebravam superproduções, ali se criava algo urgente, urbano e visceral.

De outro giro, cumpre destacar que o Living Colour também tocou no CBGB e foi uma das bandas mais marcantes que passou por templo da música, no final dos anos 80.

A relação deles com o clube é histórica.

Vernon Reid, o guitarrista e fundador da banda, era um frequentador assíduo e usou o espaço do CBGB para ajudar a fundar a Black Rock Coalition em 1985.

O objetivo era combater o preconceito na indústria musical, que muitas vezes não aceitava que músicos negros fizessem rock pesado ou experimental.

O CBGB foi o porto seguro para esse movimento.

Os concertos do Living Colour no CBGB eram descritos como explosivos. E, ainda, o são.

Naquela época, a banda misturava funk, metal, rock, jazz e punk de uma forma que ninguém tinha ouvido antes.

O palco do CBGB era minúsculo, o que tornava a performance física do vocalista Corey Glover e a técnica absurda do Vernon Reid ainda mais impactantes e visceral.

O clube ficava lotado. Era um som extremamente moderno e técnico dentro de um ambiente que ainda cheirava ao punk de 77.

Mesmo depois de se tornarem estrelas mundiais com o hit “Cult of Personality”, eles nunca esqueceram as suas raízes. A banda tocou lá várias vezes. Até em eventos beneficentes para tentar salvar o clube nos seus últimos anos.

Um dos registos mais famosos da banda no CBGB é uma versão incrível de “Sailin’ On” (dos Bad Brains), que capturava perfeitamente o espírito de união entre o rock negro, o punk e a intensidade de Nova Iorque.

E como no Sacadura 154 as apresentações possuem um ar intimista, pois as bandas ficam próximas ao público favorecendo a realização de shows mais intensos e sem filtros, valorizando a experiência ao vivo acima da superprodução.

Locais assim funcionam como incubadoras culturais. Não dependem de multidões para fazer história — dependem de verdade artística e conexão real.

Bandas como o Living Colour herdaram essa energia — a mistura de ousadia, técnica e posicionamento cultural que nasceu, naquela época, na cena novaiorquina.

Se o CBGB foi o útero do punk e da cena alternativa nova-iorquina, casas como o Sacadura 154 cumprem papel semelhante em seu contexto: manter viva a chama do rock autoral, do encontro próximo da música como experiência física e coletiva.

Porque, no fim, a história do rock não é escrita apenas em grandes arenas. Ela nasce em palcos pequenos, onde o suor pinga no chão e o som vibra no peito.

A apresentação do Living Colour com um público pequeno – talvez em razão da apresentação, concomitantemente, do Rush em São Paulo – não diminuiu a chama; pelo contrário, deu ainda mais profundidade e emoção ao espetáculo com sua plateia mega selecionada.

A apresentação de sábado não contou com o bis.

O show terminou com “Solace of You” e o vocalista, Corey Glover, visivelmente emocionado sentado na frente do palco com uma plateia hipnotizada e também emocionada.

Foi um show inesquecível. Não pelo tamanho da plateia, mas pela grandeza da entrega da banda.

Uma noite que reafirmou que o Living Colour não apenas toca ao longo de sua carreira de 40 anos — provoca, emociona e transforma cada apresentação em um momento histórico único para quem está presente.

Texto

CÉSAR OLIVEIRA

Imagens

CÉSAR OLIVEIRA

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Editor  César Oliveira